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Como ajudar uma amiga que está em um relacionamento abusivo?

Fui registrar ocorrência contra ele. À agente, expliquei, constrangida: “Ele nunca me bateu. Mas me insulta sempre, inclusive na frente da nossa filha”.

Duas amigas me perguntaram este fim de semana como poderiam ajudar duas amigas delas que estão atualmente vivendo um relacionamento abusivo. Pensei muito.

Uma delas está muito bem informada. Sabe o que é abuso psicológico e compartilha textos sobre o tema, mas não se reconhece nesta situação. A outra desconhece totalmente que a violência não é apenas física. Que pode ser psicológica e econômica também. E soltou aquela clássica frase: “Mas ele nunca me bateu”. 

As feministas piram de escutar isso. Precisamos explicar que ele bateu na alma dela. Bateu na autoestima dela. Bateu na alegria dela de viver. Considero este segundo caso mais simples, se é que podemos usar esta palavra em uma situação tão complexa.

Sugeri então à amiga do segundo caso que lhe entregasse algum folheto explicativo e institucional sobre violência psicológica. Institucional para sair do “achismo” das amigas. É assombroso perceber que o comportamento do seu companheiro reproduz um padrão social e que não se trata de um defeito, da personalidade ou da incompatibilidade de gênios.



Desde que denunciei meu companheiro para me proteger das agressões verbais dele, carrego sempre comigo duas cartilhas sobre o assunto na bolsa. Diante da desaprovação que tenho sentido pela minha atitude de denunciá-lo, surgiu uma necessidade tremenda de provar ao mundo que eu não estou louca. “Olha, está escrito aqui que o maltrato psicológico equivale a uma tortura emocional. Diz aqui que é uma forma de interação que impõe condutas ou normas que, por ação ou omissão, prejudicam o desenvolvimento da pessoa, deteriorando a autoestima, a forma de analisar, a plenitude física e distorcendo sua relação con a comunidade. Está estudado. É comum, mas invisível. É tão real que tem até uma lei. Oi? Não é coisa da minha cabeça. Não estou louca”.

Eu sabia que estava em um relacionamento tóxico, mas nunca pensei que chegaria ao cúmulo de registrar queixa. Pensei que tudo se resolveria com a separação. Fui até à delegacia da Mulher me sentindo uma dramática ridícula. Ao entrar, encontrei uma moça esperando com hematomas visíveis na cara. Pensei que o meu problema não era nada comparado ao que aquela mulher estava sofrendo. Senti muita vergonha de mim mesma. Acreditei, naquele instante, que era tudo realmente coisa da minha cabeça, que eu estava exagerando. Que ele tinha razão, que eu estava louca, que não passava de uma garota mimadinha, malcriada, cheia de caprichos, fazendo tempestade em copo d’água por uma crisezinha de casal.

Imersa naqueles pensamentos, antes que pudesse desistir de fazer o boletim de ocorrência, fui chamada. Entrei em uma salinha com uma policial carrancuda. Ela me perguntou por que eu estava ali. Bateu uma falta de ar, as palavras desapareceram. Eu quis sair correndo. Comecei então pedindo perdão. “Desculpa, não é minha intenção fazer vocês perderem tempo com meu problema.” Ela disse que não tinha nada a ver, que estavam ali para isso e me perguntou o que tinha acontecido. E então respondi: “Ele nunca me bateu… Porém me insulta de todas as formas há três anos, inclusive na frente da nossa filha”. Durante uma das piores explosões dele, nossa filha me perguntou por que o papai estava falando daquele jeito.

A policial digitava tudo, e eu continuava me sentindo ridícula de estar ali, e questionava mentalmente a real gravidade do que eu estava contando. A agente nunca me olhava, tinha os olhos fixos na tela do computador. Até que eu desatei a chorar enquanto descrevia a última discussão que me fez tomar a decisão de denunciar o pai da minha filha por violência doméstica.


Naquele momento, a policial agarrou a minha mão com força e disse: “Você é muito valente de estar aqui. Não chora porque você é muito corajosa. A maioria das mulheres passa a vida inteira sofrendo e não consegue enfrentar a situação”. Finalmente me senti amparada. Eu não estava louca. Não estou louca. Precisamos falar sobre abuso emocional.

Depois da denúncia, encontrei outro problema que me pegou desprevenida. Eu não estava preparada para encarar a rejeição das pessoas quanto à minha iniciativa. Eu inclusive achava que se a polícia explicasse pra ele o que eu vinha tentando dizer há anos ele finalmente entenderia. Eu estava tão concentrada em proteger a mim e a minha filha de um ambiente tóxico e estava tão confiante de que estava fazendo a coisa certa que realmente não previ que muito mais gente do que eu imaginava, incluindo mulheres e pessoas declaradamente feministas e estudiosas de temas de gênero, pudessem me recriminar.

Observação: meu ex é uma pessoa maravilhosa. Vale ressaltar este detalhe. Ele é um pai excelente e dedicado, um ótimo amigo, supergeneroso e prestativo, sempre preocupado em ajudar o próximo. Eu pensava que a gente se daria superbem depois da separação e que chegaríamos a ser bons amigos. Eu o admiro muito, apenas não queria continuar uma vida a dois com ele.

No entanto, precisamente pelo fato de que ele é uma pessoa formidável e um pai exemplar é que as pessoas que o conhecem simplesmente não acreditam em mim. Já não me entendiam antes, quando eu manifestava o desejo de me separar. “Como pode alguém não querer continuar com um cara tão legal e gato ainda por cima?” Só pode estar louca. E então me senti completamente abandonada.

Dediquei os últimos quatro anos da minha vida à família e aos amigos dele neste país que não é o meu, e agora não acreditavam em mim. Perdi o chão. De uma suposta amiga, feminista inclusive, que faz mestrado em políticas de gênero, escutei que ele também deveria ter a versão dele. E claro. De acordo com ele, eu sou uma pessoa conflitiva, encrenqueira, que não sabe viver em paz, que estou sempre buscando problemas.



Eu sou, sim, muito questionadora. Ariana das bravas. Mas nunca baixei o nível de uma discussão, nunca xinguei, nunca insultei, nunca massacrei. “Merda de pessoa”, “inútil”, “você tem uma abóbora na cabeça”, “filha da puta”, “você só pode trabalhar porque eu deixo”, “você está precisando limpar mais e falar menos”, “sua comida é uma merda” são apenas algumas das coisas que escutei da boca dele.

Ele, porém, insiste que a abusadora fui eu. Depois eu li que é comum que agressores se sintam vítimas. E quanto mais desesperada eu fico para provar que eu não sou o problema, mais louca eu pareço. E acabo dando razão pra ele.

Por que estou trazendo tudo isso à tona? Para voltar ao primeiro caso da amiga da minha amiga. Sair de um relacionamento abusivo é muito difícil também por tudo o que implica depois. Como não duvidar de nós mesmas, principalmente expostas aos argumentos brilhantes da pessoa que a gente ama? Como ficar firme e manter a decisão de se separar sem ter recaídas?

No meu caso, tenho certeza de que se eu não tivesse denunciado meu companheiro, ainda que estivesse separada, continuaria muito vulnerável é suscetível à influência e às opiniões dele sobre mim. Todos os fins de semana que passo sem a minha filha, eu sinto uma saudade horrorosa dos dois. Dá vontade de desistir de tudo, de cancelar o B.O., de ligar pra ele, de escutar a voz dele e pedir perdão, de dizer que eu o amo.

Então eu olho ao redor a minha casinha fofa que eu estou moldando aos poucos, de formas que ele jamais permitiria. E aí começo a relembrar detalhes de uma convivência dolorosa e desagradável, de momentos absurdos que custo a acreditar ainda que foram reais. Eu ainda escuto a voz dele no meu ouvido me insultando todas as noites. Passei duas semanas chorando sem parar. Até que reagi. Talvez tenha coincidido com o efeito do antidepressivo que me receitaram. E, do pranto passei à raiva.

Na raiva encontrei uma aliada. Não é ódio, vejam bem. É raiva. Eu não odeio o pai da minha filha, não lhe desejo nada de mal, muito pelo contrário. Mas é a raiva que eu tenho de tudo o que eu passei que tem me dado forças para me levantar da cama todos os dias, para cuidar da minha filha, para trabalhar, para não dar marcha ré, para não ligar pra ele desesperada de remorso, para não dar razão a ele de que eu mesma não me aguento e que nunca vou ser feliz na vida. Ainda tenho crises de choro que me paralisam. Mas a raiva tem me ajudado a voltar ao normal, por mais insano que pareça. A raiva é um motor. Mas use com moderação.


Por que estou contando tudo isso? Porque estou convencida de que, no caso da primeira amiga, ela sabe, lá no fundo, que ela vive uma situação de abuso emocional. Mas acho que ela ainda não consegue enfrentar o problema. Depois da separação a gente ainda tem que encarar a nossa própria cabeça, os nossos dramas, os medos, as inseguranças, tem que encarar a gente mesma. É uma decisão muito difícil de tomar e mais difícil ainda de manter. E, nesse caminho, as recaídas são muito normais. Não se assuste se sua amiga vítima de violência aparece, logo depois de uma crise, em uma linda foto romântica com o namorado/marido que a faz sofrer. Ela não é idiota. Só que é muito difícil enfrentar o desconhecido e ela ainda tem esperança de recuperar o projeto de vida que ela construiu com o companheiro.

Como ajudar então? Como não ser invasiva? Apoio incondicional e paciência, em primeiro lugar. Se você presenciar uma discussão e perceber algum desrespeito, tem que meter a colher, sim! Muitas vezes, a pessoa que maltrata não percebe que está passando dos limites. Como ela não costuma escutar a companheira, escutar alguém que está de fora pode ajudar. Se o agressor reage à intervenção de forma pior, isso também servirá para mostrar à vítima a gravidade do problema, além de fazê-la se sentir protegida e amparada.

Gostaria que esse fosse um desabafo útil. De alguém que passou e está passando por uma experiência muito ruim e está se expondo para que outras mulheres possam se empoderar também. Eu ainda sinto muita necessidade de me justificar, de me explicar, de provar que não estou louca. Ainda estou muito carente de colo, de me sentir compreendida, apoiada, de escutar: “eu te entendo” ou “eu acredito em você”. Agradeço infinitamente aos que estão me acompanhando nesse processo.

Falemos sobre violência psicológica, por favor. Recordemos quantas vezes for necessário que não tem classe social nem gênero. Que agressores não são monstros nem pessoas doentes, e não são somente homens. Pode ser qualquer um/a. Casais de mulheres lésbicas e feministas, por exemplo, também podem cair nesse mesmo ciclo tóxico. Aproveitemos a abertura que está surgindo. Até a Globo encarou o tema no Big Brother. 

A militância virtual tem dado resultados. Uma prova disso é o movimento #NemUmaMenos, que começou com a hashtag em espanhol na Argentina para convocar uma marcha, em 2015, que transcendeu as fronteiras internacionais. Batamos de novo na tecla de que o assassinato de mulheres é apenas a ponta do iceberg de uma violência estrutural. E que a violência psicológica também pode ocasionar a morte da vítima, seja porque o maltrato evolui à agressão física ou porque a própria vítima se mata de tão deprimida que fica. Eu desejei morrer e foi assustador me flagrar com tal pensamento.


Vivas nos queremos. Cuidemos-nos. 
Não estamos loucas, e se ficamos histéricas é porque dói muito ser mulher nesta sociedade. 
Dói na carne ou na alma. Dói demais.

Por Patrícia Álvares Do Huff Post Brasil



Conheça MALUMA, o Cantor Pop Machista e Misógino da Colômbia.


Em dezembro o artista, Maluma, foi convidado pelo canal de TV espanhol Telecinco para representar os novos talentos musicais do país no programa La Voz (A Voz). Este bonito rapaz, cujas letras são ouvidas por toda parte, virou símbolo de masculinidade na Espanha contemporânea. Um de seus trabalhos mais recentes, Cuatro Babys (Quatro Gatas), faz a justificativa da violência contra mulheres. A canção as descreve como simples corpos intercambiáveis a serviço do desejo sexual irrestrito, ilimitado e incontrolável dos rapazes. Pode ser que entre a música e a pronúncia horrível do artista, a mensagem passe despercebida. Mas eu me dei a liberdade de analisar alguns dos versos que chamam a atenção.



"Estou apaixonado por quatro gatas. Elas sempre me dão o que eu quero. Fodem quando eu mando. Nenhuma delas me vem com 'mas'."

É mais um exemplo do "efeito Axe" que testemunhamos a vida inteira: a ideia de que só porque você é homem e estala os dedos, todas as mulheres vão cair a seus pés e arrancar as calcinhas.

"Duas são casadas. Uma é solteira. A outra é tipo maluca e se eu não telefono, ela se desespera." 

Aqui é apresentado o bando -o grupo de mulheres sem nome, descritas apenas em termos de seu status com relação a outros homens: solteiras ou casadas.

"A primeira se desespera, fica louca se eu gozo fora. A segunda tem o segredo e me paga para meter fundo. A terceira acaba com meu estresse, trepadas seguidas, sempre damos três. Na primeira eu faço a terra tremer para ela, mas ela quer com Maluma e comigo ao mesmo tempo."

Aqui é o amigo de Maluma, outro homem muito macho, que descreve o que faz com cada uma das mulheres.

Evidentemente, ser homem é associado a fazer sexo com quanto mais mulheres, melhor, quanto mais vezes, melhor. Enquanto isso as mulheres são descritas como pessoas que querem que o homem as penetre, as engravide (ele entra em mais detalhes mais adiante), meta muito fundo...

Fica claro que ser "muito homem" também implica não ter a menor ideia sobre o prazer feminino.

"Você tem todas minhas contas de banco e o número do MasterCard. Você é minha mulher oficial." "Todas querem trepar comigo em cima de notas de $100. ... Você me faz andar de patins. Comprando no dia de São Valentim. Elas já me custaram mais que um relógio Ulysse Nardin."

O homem é mostrado como o caçador do bando. O homem é aquele que ganha dinheiro e sustenta a mulher (ops, as mulheres). As mulheres, como não poderia deixar de ser, são ávidas e só querem tirar vantagem dele. Sim, isso é tudo muito moderno.

"Nenhuma delas se cansa de foder. A ruiva quando está bebendo é a que fica mais molhadinha. Ela se enfurece quando me liga e eu não quero transar. Brigamos, ela joga minhas roupas fora, e eu tenho que ligar para a linguaruda para ir buscar."

Além de estarem disponíveis para fazer sexo (acho que essa parte já ficou clara), as mulheres são descritas como empregadas que pegam as roupas do chão e, por uma pequena gratificação, as lavam, passam e deixam dobradas sobre a cama. A coitada da "linguaruda" nem sequer nome tem.

"Nem sei com qual delas ficar, é que todas elas chupam muito bem."

Nosso personagem enfrenta um conflito tremendo: com qual das garotas ficar? Todas o agradam sexualmente, e o que mais uma mulher tem a oferecer? É desnecessário dizer que as mulheres não têm escolha - elas aceitarão a decisão que ele tomar.

"Diferentes nacionalidades, mas quando transam, todas gritam igual. Ela quer que eu a leve a Medellin. Quer que eu trepe com ela em carros novos. E com as outras duas juntas na banheira."



Vale recordar aqui a frase de um dos estupradores de San Fermin: "Ela estava gemendo, estava curtindo". E depois, quando nos indagamos de onde vêm essas coisas... E, caso não gritemos o suficiente, podemos também fazer isso em duplas, juntas na banheira, uma em soprano e a outra em contralto.

A rede Telecinco escolheu esse artista para aconselhar profissionais de canto. Ele perpetua os valores que vinculam a masculinidade com aspirações que se resumem a dinheiro e sexo, nada mais. E pelo que parece que um dos orientadores do programa, que também é muito macho, Melendi, não quis perder para Maluma e avisou o convidado: "Cuidado com quem você põe no palco da próxima vez", aludindo a uma dança "perreo" (algo como o twerking) de Maluma com a ex de Melendi.

Deve ser porque, mesmo eles não estando mais juntos, a mulher continua a ser propriedade dele.

Me pergunto o que estava pensando a equipe do La Voz quando convidou Maluma para o programa. Me pergunto o que os concorrentes devem ter pensado quando foram orientados por ele. E me pergunto também o que vão pensar os espectadores.

Estão fazendo falta as vozes de homens que se manifestem sobre esse assunto. Você não fica de estômago virado quando ouve essas letras? Você se sente representado desse jeito? Não o apavora a ideia de que seus filhos vão crescer vendo esses exemplos?



Feminismo para homens: UM CURSO RÁPIDO.

De homem para homem.
Algumas noções básicas e indispensáveis sobre feminismo.


Você é a favor ou contra o feminismo?

Você concorda que: 

 - Mulheres devem receber o mesmo valor que homens para realizar o mesmo trabalho?
 - Mulheres devem ter direito a votar e ser votadas? 
 - Mulheres devem ser as únicas responsáveis pela escolha de suas profissões, e que essa decisão não pode ser imposta pelo Estado, pela escola nem pela família? 
 - Mulheres devem receber a mesma educação escolar que os homens? 
 - Cuidar das crianças deve ser uma obrigação de ambos o pai e a mãe? 
 - Mulheres devem ter autonomia para gerir seus próprios bens? 
 - Mulheres devem escolher se, e quando, se tornarão mães? 
 - Mulheres não devem sofrer violência física ou psicológica por se recusar a fazer sexo ou por desobedecer o pai ou marido? 
 - Tarefas domésticas são de responsabilidade dos moradores da casa, sejam eles homens ou mulheres? 
 - Mulheres não podem ser espancadas ou mortas por não quererem continuar em um relacionamento afetivo? 

 Se marcou sim em todas ou quase todas... Sinto afirmar mas... Você é pró-feminista!

(Naturalmente, praticar e viver e defender o feminismo não se resume a dizer "sim" a esses tópicos, mas já é um primeiro passo. Leia a versão original desse teste, criada por Cynthia Semiramis.)

(Cada um no seu lugar. Uns brincam, outros trabalham. Como deve ser!)

Feminismo é a busca por direitos iguais para as mulheres já o machismo é a dominação do homem sobre a mulher. Os dois termos não são, nunca serão, não podem ser análogos. É uma falsa simetria. é como reclamar de não haver um dia da Consciência Branca. (Explicando rapidamente a diferença: uma camisa "100% branco" é de profundo mau-gosto, ao mostrar quem está por cima celebrando sua hegemonia. "100% negro", por outro lado, é a celebração de uma identidade marginalizada tentando se afirmar contra todas as desvantagens inerentes no sistema.) O machismo, por definição, é antimulher mas o feminismo não é, nunca foi, nunca será antihomem. O inimigo do feminismo não é você, homem de carne e osso lendo esse texto, mas a estrutura machista da nossa sociedade.

Outro dia, um amigo me disse:

"O feminismo levado ao extremo é pior do que qualquer machismo".
Mas quando é que o feminismo foi levado ao extremo? Vocês já viram mulheres pregando discurso de ódio aos homens, dizendo que os homens não deveriam poder trabalhar, votar, assinar contrato? Nunca vi ninguém nem mesmo defender isso, quanto mais aplicar no mundo real.

Por outro lado, o machismo, em todas as suas vertentes, é aplicado todo dia, no mundo inteiro, em bilhões de mulheres. E, pior, o machismo mata.

Também tem gente que diz: 

"Não sou machista nem feminista, sou humanista!"
Mas os três termos não tem literalmente nada a ver um com o outro: o machismo é um sistema de dominação, o feminismo é uma luta política por direitos iguais e o humanismo é o sistema filosófico materialista que coloca a humanidade em primeiro lugar — em oposição à deus e à metafísica.

Não é nem que são termos opostos ou coincidentes, mas se referem a áreas completamente distintas.

Seria como dizer: 

"Não sou nem paulista nem canhoto, sou engenheiro!"
Portanto, falar que "as feministas são tão ruins quanto os machistas" só faz expor o machismo de quem fala.

A feminista mais radical não tem como ser pior do que o machista mais brando.



O feminismo não defende que homens e mulheres são biologicamente iguais, mas sim que devem ter direitos iguais.Muitas vezes, entretanto, só se alcança a igualdade ou equivalência de direitos justamente atentando para as diferenças. A expressão constitucional "todas as pessoas são iguais perante a lei" é mais corretamente interpretada se dizemos "tratar diferentemente as pessoas desiguais para que tenham acesso equivalente ao direito que a lei confere a todas as pessoas".

Afirmar que as feministas são tão ruins quanto os machistas é como dizer que vítimas que clamam por justiça são tão incômodas quanto as criminosas. A principal diferença entre o machismo e o feminismo é bem simples: o feminismo pode ter todos os defeitos do mundo, mas ele nunca matou ninguém. O machismo mata. Todos os dias.

Dez mulheres são assassinadas por dia no Brasil, colocando-o no 12º lugar no ranking mundial de homicídios contra a mulher. Uma em cada cinco mulheres já sofreu violência de parte de um homem, em 80% dos casos o seu próprio parceiro. Em 2011, o ABC paulista teve um estupro (reportado!) por dia. Na cidade de São Paulo, uma mulher é agredida a cada sete minutos.

Para os homens, não basta simplesmente não estuprar: é preciso não alimentar a cultura do estupro.
A violência contra a mulher não acontece num vácuo: ela é possibilitada por todo um contexto de piadas machistas, de objetificação feminina, de controle do corpo da mulher. Quem cria esse contexto somos todos nós, os homens. Somos todos cúmplices.

"Mas iuzomi? Os homens morrem muito mais vítimas da violência que as mulheres!"

Sim, em números absolutos, os homens são a maioria das vítimas de homicídio. A diferença é que quem está matando os homens são os próprios homens. Quando uma mulher sofre uma violência, o agressor é geralmente homem. Quando um homem sofre uma violência, o agressor quase sempre é um homem.

Com uma grande diferença: as violências que sofrem as mulheres geralmente são por ser mulheres. As violências que sofrem os homens nunca são por serem homens mas sim por serem homens pobres, por serem homens negros, por serem homens homossexuais, por serem homens trans.

O fato de os homens serem a maior parte das vítimas da violência não quer dizer que a violência não é machista. Quer dizer que, além de machista, ela é classista, racista, homofóbica, transfóbica. Enfim, outrofóbica.


Não minimize a dor da outra pessoa

Quando um amigo bate com o carro e se machuca gravemente, você...

- minimiza o acidente dizendo que milhares de outras pessoas batem de carro todos os anos?
- dá um esporro nele por não usar cinto?
- menospreza, dizendo, "ah, aposto que você estava correndo"?
- puxa a questão pra você, choramingando "pior fui eu que caí de bicicleta"?

Se você não faz isso com seu amigo que bateu com o carro (estaria indo rápido demais?), que foi assaltado na rua (será que deu mole?) ou que tem câncer de pulmão (quem mandou fumar?), por que fala coisas semelhantes quando as mulheres reclamam das muitas violências que sofrem?

Já vi muitas vezes: uma mulher junta toda sua coragem e determinação para falar e denunciar um estupro que sofreu e, imediatamente, diversos homens, consumidos por uma ansiedade latente para exculpar o estuprador, correndo para se colocar no lugar dele ("e se fosse comigo? e se eu fosse falsamente acusado de estupro?") mas incrivelmente nunca no lugar da vítima, começam imediatamente a não só minimizar a gravidade do crime mas a também buscar maneiras de transferir parte da culpa para a vítima: "deve ter provocado", "estava vestida de forma inadequada", "se colocou em risco porque bebeu", "não deveria ter ido à casa dele", etc etc.

Quando mulheres reclamam de cantadas de rua, essa violenta e invasiva objetificação pública de seus corpos, os homens respondem com variações de:

"Olha, essa coisa aí que você sente na pele e que diz que te incomoda e te apavora, eu, que nunca senti isso na pele, estou dizendo que é pura frescura sua, que isso não tem nada de mais!"

Machismo é isso: achar que você, homem, é quem vai determinar o que assusta ou não as mulheres. Que você sabe, mais do que elas mesmas, a verdadeira gravidade dos problemas que as afligem.

Se você nunca fez diálise e tem os rins perfeitos, não critique a pessoa que reclama de ter que filtrar o sangue todo dia.

Tenha empatia pela dor do outro — especialmente se for uma dor que você nunca experimentou e, teoricamente, nunca experimentará.

TESTE SEU MACHISMO

Imagine que você tem um grupo de pessoas e quer descobrir quantas são alérgicas a uma substância. Pois bem, você pinga uma gotinha na mão de cada uma. Quem reagir à substância, ficar com coceira ou inchaço, é porque é alérgica. Por definição. Ser alérgico é isso: reagir a essa substância.

Pensem no feminismo como essa substância.

Se você é exposto ao feminismo e fica com inchaço ou coceira na mão, se sente incomodado e patrulhado, precisa mudar seu modo de agir e de falar, então é porque seus modos de falar e de agir eram machistas. Machismo é isso. Não tem outra definição.

Se você acha que não, está em denegação. Mas a coceira na sua pele não te deixa mentir.

"Poxa, não sou machista! Até ajudo na casa!"

Estados Unidos, mesa grande, gente do mundo todo. O assunto: casa e filhos, homens e mulheres, machismo e feminismo.

Então, um dos brasileiros, cheio de orgulho, afirmou:

"Ah, eu sempre ajudo minha mulher com as tarefas domésticas."

Para sua enorme surpresa, a outra brasileira da mesa, casada com um holandês e morando há trinta anos no exterior, carimbou:

"Estão vendo agora porque eu sempre digo que o homem brasileiro é machista?"

O pobre brasileiro ficou transtornado. Não entendeu nada. Pensou até que fosse ironia. Que talvez ela não tivesse ouvido bem. Repetiu:

"Está falando de mim? Mas acabei de dizer que ajudo minha mulher em todas as tarefas da casa!"

"Pois é. Ao dizer que "ajuda", o que você está dizendo é: essa obrigação é só dela, mas eu, olha como sou tão legal e tão magnânimo!, até desço aqui do meu pedestal e… ajudo!"

E acrescentou o marido holandês:

"Lá em casa, nós dois dividimos igualmente as tarefas."


Estava eu na casa de uma amiga quarentona, profissional, independente, decidida. Passamos pelo quarto do seu filhão pós-adolescente, de barba e bigode, e ela vê sua toalha de banho embolada no chão. Vai lá, pega, estica na corda, e ainda comenta: "Tsc tsc, igual ao pai!"

Que coincidência!, pensei. E, como não consigo ficar calado, disse: "Você já considerou a possibilidade de simplesmente não pegar a toalha?" 

"E quando ele chegar da universidade e quiser tomar banho, vai se enxugar com o quê?"

"Bem, é justamente esse o problema, não é? Você não está dando ao seu filho a menor chance de crescer um homem autossuficiente e organizado. Ele larga a toalha embolada no chão e, quando chega da aula, ela está pendurada, esticadinha e seca no box. É como se fosse mágica. Por que ele mudaria seu comportamento? Pra ele, a situação está perfeita e resolvida."

"Mas, Alex, se eu não catar a toalha, ele vai chegar em casa, vai direto pro banho, e ainda vai gritar de lá: ‘manhêêêêê, cadê a minha toalha?!’ E aí?"

"Por que não responder: ‘filhôôô, a sua toalha deve estar onde você deixou!’? Deixa ele se enxugar um dia com o tapete do banheiro. Molda o caráter e só faz bem."


Nossa sociedade machista e outrofóbica fala, existe, se perpetua através de nós, de nossos corpos, de nossa fala, de nossos preconceitos, da educação que todas nós, homens e mulheres, brancas e negras, ricas e pobres, damos aos nossos filhos e às nossas filhas.

Um casal meu conhecido obriga a filha adolescente a manter seu quarto pronto para receber visita do Rajá da Índia, enquanto o quarto do filho parece um depósito de lixo. Eu já sabia a resposta, mas perguntei mesmo assim. E responderam: "Ué, Alex, ele é menino! Não precisa ser arrumadinho."

Em outra família, o filho de dezesseis pode trazer quantas namoradas quiser e ficar trancado com elas no quarto, estudando filosofia estruturalista, apreciando sua coleção de selos búlgaros ou transando como coelhos — os pais preferem nem saber. Já a filha, de dezessete, não pode nem falar em ter namorados. (Ou, pior, namoradas!) Dizem o pai e a mãe: "Ela ainda é muito jovem, os homens dessa idade não prestam, só querem saber da mesma coisa!"

E tenho vontade de perguntar: "Se não fossem irmãos, você aprovaria o seu filho como namorado para sua filha?" Se a resposta for negativa, é caso de reconsiderar a educação que estão recebendo.

Infelizmente, a grande maioria das mães e dos pais que conheço educa seus filhos e suas filhas exatamente assim. O estupro talvez seja o pior exemplo: estamos há séculos ensinando as meninas como se vestir e como agir – para a segurança delas, claro! Mas talvez fosse a hora de ensinar os meninos como não-estuprar. Quando ensinamos nossa filha a não usar saia tão curta, não é que estamos perpetuando uma prática milenar patriarcal de controlar o corpo das mulheres! Nãããão! É porque queremos o bem delas, pôxa!

Mas, dentre esses pais e mães que controlam as saias das filhas com tanta ênfase e tanto afinco, quantos já usaram a mesma ênfase e o mesmo afinco para controlar os hormônios e os impulsos dos filhos? Para ter uma conversa franca e aberta sobre estupro e escolha? Para ensinar explicitamente aos seus filhos homens que uma mulher embriagada, drogada ou incapacitada não tem como dar consentimento legal e, portanto, que o sexo deve ser deixado para outra noite?

Filhos e filhas vão levar para toda a vida as lições de machismo prático e outrofobia concreta que seus pais e suas mães lhes ensinaram. Alguns talvez consigam, a custa de muito esforço pessoal, apagar e superar esses ensinamentos perniciosos. A maioria, entretanto, em breve repassará as mesmas lições machistas para seus filhos e filhas e, assim, estarão perpetuando a cultura do machismo, do patriarcado, da violência contra a mulher, da desigualdade de gênero, da outrofobia.

"Se as próprias mulheres são machistas, por que EU teria que deixar de ser?"

Sim, muitas vezes, infelizmente, as próprias mulheres são cooptadas pelo machismo e se tornam porta-vozes de seus piores preconceitos. A outrofobia é tão forte que coopta até mesmo o objeto de sua fobia.  Entretanto, isso só comprova a gravidade e a urgência do problema: a mulher, quando se deixa infectar pelo machismo e se transforma em vetor da cultura machista, torna-se vítima e algoz, duplamente vítima.

É como se o Aedes aegypti não só transmitisse a dengue, mas também morresse dela.

"Feminismo é coisa de mulher"

Não é verdade sabe porque? A luta por direitos iguais entre homens e mulheres interessa a ambos os gêneros. Ao libertar as mulheres, o feminismo também liberta o homem da sufocante obrigação histórica de tomar sempre a iniciativa, de estar no comando, de ser o provedor, de ter que ganhar mais. O feminismo é antes de tudo uma luta por direitos humanos. A nossa espécie enquanto espécie não pode ir pra frente enquanto metade for escravizada pela outra metade.

Não diga às mulheres o que fazer. Nada pode ser mais intrinsecamente machista do que você, homem, mesmo ó tão pró-feminista e ó tão razoável, querendo dizer às feministas como devem se comportar. Que "seriam mais ouvidas se fossem menos agressivas". Que "deveriam ser mais dóceis". Que não entende porque estão brigando logo com você, que é tããão fofo, tão pró-feminista, tão amigo!

Se você, homem, a essa altura do campeonato, ainda se acha no direito de dizer pras mulheres como devem se comportar; se acha que cabe a você determinar qual é a melhor maneira do feminismo alcançar seus objetivos; se acha mesmo que é aceitável esse tipo de comentário ao mesmo tempo autoritário e condescendente, então, meu amigo, você não entendeu nada.

Mas tem conserto: fecha essa boca, abre esse ouvido. Para um homem, simplesmente ouvir as mulheres, sem interpelar grosseiramente nem minimizar as agressões sofridas, já é um grande, enorme, importantíssimo primeiro passo.

Nossa sociedade não se organizou sozinha, nem caiu pronta do céu: foi organizada por muitos homens (ênfase em "homens"), ao longo de muitos séculos, e obedece, em larga medida, aos interesses de quem a organizou – interesses muitas vezes conflitantes e contraditórios, pois a sociedade é fruto não de uma "conspiração a portas fechadas", mas de um longo processo social e político. No caso do Brasil, nossa sociedade foi engendrada por uma elite machista, classista, hierarquizada, racista, paternalista, hipócrita e autoritária, e continuamos funcionando de acordo com esse paradigma outrofóbico até hoje, mesmo que sob o verniz da democracia e do estado de direito.

Então, se todas as pessoas brasileiras magicamente deixarem de ser outrofóbicas mas as estruturas e instituições permanecerem inalteradas, essa nossa hipotética sociedade sem machistas e sem racistas continuará intrinsecamente machista e racista, e marcada pela mais profunda outrofobia, pela mais crônica desigualdade racial e de gênero.

Acredito nos bons sentimentos de todo mundo, mas não deixo de achar incrível que, mesmo ninguém sendo machista ou racista nessa nossa sociedade tão linda, o resultado final é que as pessoas brasileiras do sexo feminino ou de pele mais escura (e gays e trans* e etc e etc) sempre acabam se dando pior. A Outrofobia sempre vence. O baralho que herdamos já está viciado para beneficiar sempre um tipo específico de jogador. Não basta que os jogadores beneficiados simplesmente não trapaceem – pois, mesmo assim, vão continuar magicamente ganhando todas as partidas.



Agora que você leu um texto de um homem explicando para outros homens as noções mais básicas e rudimentares do feminismo, seu dever de casa para essa noite é... ler as mulheres! Existem sites excelentes que você pode e deve acompanhar, mantidos por escritoras, pensadoras, militantes e estudiosas que recomendo, como Lola Aronovich,Aline Valek, Cynthia Semiramis, Mary W., Marília Moschkovich, e diversas outras, além de blogueiras negras como Jarid Arraes e Djamila Ribeiro.  Destaque especial para sites sobre femininismo interseccional e transfeminismo, tópicos explosivos, importantes e negligenciados do feminismo de hoje, mantidos por pessoas cuja militância admiro e que me ensinam muito sobre o tema todos os dias, como Hailey Kaas, Daniela Andrade & Juno Cremonini.

Agradecimentos especiais ao Alex Castro do site Papo de Homem pelo excelente texto. Obrigado. 

Biel e as Consequências do Machismo.


A mensagem feminina das ruas é cristalina: machistas não passarão. O fim da violência e da opressão derivadas de culturas e hábitos machistas é tão urgente que as consequências e conquistas da justa luta das mulheres podem ser sentidas e assistidas ao vivo, enquanto a luta se dá – aí está o jovem MC Biel para comprovar.

Biel estava a caminho de se tornar o mais novo e imbatível produto teen pop, mas uma sucessão de declarações machistas mostrou como os tempos estão mudando. Durante uma entrevista ao Portal Ig, o MC decidiu que era uma boa ideia assediar a repórter, chamando-a de “gostosinha” e dizendo que se a “pegasse” ele a “quebraria no meio”. Gravações e testemunhas comprovam que o assédio aconteceu em diversos outros momentos da conversa.

A repórter denunciou o cantor, e as reações foram intensas e velozes. Biel tentou sem muita habilidade minimizar o caso, mas já era tarde: o convite para carregar a tocha olímpica em Fortaleza foi retirado, assim como diversas participações em programas da TV Globo, e até mesmo uma de suas músicas foi temporariamente suspensa da programação do canal. Boatos indicam que o cantor teria perdido um contrato com a Coca-Cola. Em um vídeo sério, já sob o grave efeito dos fatos, ele pede desculpas a todos. Depois do pedido, no entanto, outra repórter, do Portal da Música, veio a público revelar que também foi assediada pelo cantor.



O que será de Biel, só o tempo dirá, mas a luta das mulheres certamente não é passageira. Basta um tantinho de empatia, inteligência e senso de justiça para entender que é fundamental que esses hábitos antes tão naturais sejam sim apontados e rejeitados com rapidez exemplar.
Em sua clássica canção de 1964 The Times They Are A-Changin’ (Os tempos estão mudando) Bob Dylan canta: “Então é melhor começar a nadar/ou você afundará feito uma pedra/pois os tempos estão mudando”. Adaptando as palavras de Dylan para o direto ao ponto e a gravidade do contexto atual e das consequências do machismo, a mensagem é uma só: é melhor começar a mudar, pois machistas não passarão.