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Glamour, a girlband que fez uma releitura das Destiny's Child


Destiny’s Child é uma das girlbands mais icônicas de todos os tempos, sem sombra de dúvidas. O legado das garotas fica claro não só quando falamos de seus hits, como também, quando falamos das integrantes. Extremamente talentosas, encerraram um ciclo com perfeição com o grupo e até hoje seus fãs pedem por uma turnê, disco ou algum material de despedida.

Destiny's Child em sua última formação e a mais clássica de todas.

Nunca haverá outro Destiny’s Child, isso nós sabemos. Nunca haverá uma nova Beyoncé, Kelly e Michelle vibrando na mesma sintonia. Mas, sempre haverá espaço para a renovação e para novos talentos. E é este espaço que a girlband americana Glamour vem tentando ocupar. Elas pegaram as canções clássicas do trio, como Bills, Bills, Bills, Lose My Breath, Say My Name e outras e criaram versões novas, totalmente diferente das originais.


A mixtape das garotas é inspirada no segundo álbum de estúdio das Destiny’s Child, The Writting’s on The Wall. Além das releituras dos clássicos das Destiny’s, o mini-álbum conta com três faixas inéditas: Bye Felicia, We Are The Turn Up e um trecho de B.A.E, o single de lançamento delas.


O trio de Atlanta, estado americano da Georgia, é formado por Kaylan, Moriah e Ydal. O lançamento oficial do single delas, B.A.E, acontece no dia 23 de janeiro. Vocês podem ficar por dentro das novidades pelo instagram das moças. Desejamos sucesso para elas.



Conheça MALUMA, o Cantor Pop Machista e Misógino da Colômbia.


Em dezembro o artista, Maluma, foi convidado pelo canal de TV espanhol Telecinco para representar os novos talentos musicais do país no programa La Voz (A Voz). Este bonito rapaz, cujas letras são ouvidas por toda parte, virou símbolo de masculinidade na Espanha contemporânea. Um de seus trabalhos mais recentes, Cuatro Babys (Quatro Gatas), faz a justificativa da violência contra mulheres. A canção as descreve como simples corpos intercambiáveis a serviço do desejo sexual irrestrito, ilimitado e incontrolável dos rapazes. Pode ser que entre a música e a pronúncia horrível do artista, a mensagem passe despercebida. Mas eu me dei a liberdade de analisar alguns dos versos que chamam a atenção.



"Estou apaixonado por quatro gatas. Elas sempre me dão o que eu quero. Fodem quando eu mando. Nenhuma delas me vem com 'mas'."

É mais um exemplo do "efeito Axe" que testemunhamos a vida inteira: a ideia de que só porque você é homem e estala os dedos, todas as mulheres vão cair a seus pés e arrancar as calcinhas.

"Duas são casadas. Uma é solteira. A outra é tipo maluca e se eu não telefono, ela se desespera." 

Aqui é apresentado o bando -o grupo de mulheres sem nome, descritas apenas em termos de seu status com relação a outros homens: solteiras ou casadas.

"A primeira se desespera, fica louca se eu gozo fora. A segunda tem o segredo e me paga para meter fundo. A terceira acaba com meu estresse, trepadas seguidas, sempre damos três. Na primeira eu faço a terra tremer para ela, mas ela quer com Maluma e comigo ao mesmo tempo."

Aqui é o amigo de Maluma, outro homem muito macho, que descreve o que faz com cada uma das mulheres.

Evidentemente, ser homem é associado a fazer sexo com quanto mais mulheres, melhor, quanto mais vezes, melhor. Enquanto isso as mulheres são descritas como pessoas que querem que o homem as penetre, as engravide (ele entra em mais detalhes mais adiante), meta muito fundo...

Fica claro que ser "muito homem" também implica não ter a menor ideia sobre o prazer feminino.

"Você tem todas minhas contas de banco e o número do MasterCard. Você é minha mulher oficial." "Todas querem trepar comigo em cima de notas de $100. ... Você me faz andar de patins. Comprando no dia de São Valentim. Elas já me custaram mais que um relógio Ulysse Nardin."

O homem é mostrado como o caçador do bando. O homem é aquele que ganha dinheiro e sustenta a mulher (ops, as mulheres). As mulheres, como não poderia deixar de ser, são ávidas e só querem tirar vantagem dele. Sim, isso é tudo muito moderno.

"Nenhuma delas se cansa de foder. A ruiva quando está bebendo é a que fica mais molhadinha. Ela se enfurece quando me liga e eu não quero transar. Brigamos, ela joga minhas roupas fora, e eu tenho que ligar para a linguaruda para ir buscar."

Além de estarem disponíveis para fazer sexo (acho que essa parte já ficou clara), as mulheres são descritas como empregadas que pegam as roupas do chão e, por uma pequena gratificação, as lavam, passam e deixam dobradas sobre a cama. A coitada da "linguaruda" nem sequer nome tem.

"Nem sei com qual delas ficar, é que todas elas chupam muito bem."

Nosso personagem enfrenta um conflito tremendo: com qual das garotas ficar? Todas o agradam sexualmente, e o que mais uma mulher tem a oferecer? É desnecessário dizer que as mulheres não têm escolha - elas aceitarão a decisão que ele tomar.

"Diferentes nacionalidades, mas quando transam, todas gritam igual. Ela quer que eu a leve a Medellin. Quer que eu trepe com ela em carros novos. E com as outras duas juntas na banheira."



Vale recordar aqui a frase de um dos estupradores de San Fermin: "Ela estava gemendo, estava curtindo". E depois, quando nos indagamos de onde vêm essas coisas... E, caso não gritemos o suficiente, podemos também fazer isso em duplas, juntas na banheira, uma em soprano e a outra em contralto.

A rede Telecinco escolheu esse artista para aconselhar profissionais de canto. Ele perpetua os valores que vinculam a masculinidade com aspirações que se resumem a dinheiro e sexo, nada mais. E pelo que parece que um dos orientadores do programa, que também é muito macho, Melendi, não quis perder para Maluma e avisou o convidado: "Cuidado com quem você põe no palco da próxima vez", aludindo a uma dança "perreo" (algo como o twerking) de Maluma com a ex de Melendi.

Deve ser porque, mesmo eles não estando mais juntos, a mulher continua a ser propriedade dele.

Me pergunto o que estava pensando a equipe do La Voz quando convidou Maluma para o programa. Me pergunto o que os concorrentes devem ter pensado quando foram orientados por ele. E me pergunto também o que vão pensar os espectadores.

Estão fazendo falta as vozes de homens que se manifestem sobre esse assunto. Você não fica de estômago virado quando ouve essas letras? Você se sente representado desse jeito? Não o apavora a ideia de que seus filhos vão crescer vendo esses exemplos?



5 Novas apostas para a Música Mainstream Brasileira.

Após o surgimento de Anitta o pop brasileiro feminino cresceu muito no país, surgindo cantoras de todos os lados como Ludmilla e Lexa e podemos arriscar também a Karol Conka que já se jogou no Mainstream a algum tempo como vimos nos últimos singles. Trouxemos uma lista de novos rostos não só do Pop e do Pop Fnk como do Rap e do R&B brazuca para você já ir se adaptando. Algumas irão para frente, outras ficarão esquecidas, e algumas estão na estrada a algum tempo.


Duda - Natural de Teresópolis (RJ), Duda descobriu o talento para a música aos 6 anos. Na adolescência, participou de um concurso de calouros mirim em sua cidade e conseguiu o primeiro lugar. “Daí, tive a certeza de que poderia ser uma cantora profissional e investi no meu sonho”, conta Duda, cujas influências são cantoras como Beyoncé, Rihanna, Alicia Keys, Ivete Sangalo. Com 51kg distribuídos em 1m64, olhos verdes e cabelos pretos, a cantora Duda, de 24 anos, é a nova aposta da gravadora Universal e chama atenção pela semelhança com Nicole Scherzinger, líder do grupo PussyCat Dolls. “Ela é uma inspiração para mim. Tem um lado bem sensual no palco, mas não é vulgar. Algumas pessoas citam a semelhança e me sinto honrada. Acho ela linda e sexy demais” Escute o EP clicando aqui.  




Lary - A  nova aposta da empresa de gerenciamento artístico K2L (aquela que lançou Anitta e depois Lexa) é a novata de 23 anos que lançou recentemente seu primeiro single e clipe. Ela é cantora e compositora e é sempre muito focada em seus compromissos, vem se dedicando ainda mais aos ensaios, além de se entregar por inteiro as aulas de canto, dança e interpretação que fazem parte de seu dia a dia. A cantora possui a referência de artistas como Ivete Sangalo, Ludmilla, Anitta, Beyoncé e J-Lo para a construção de seu estilo artístico. Parece que a dedicação esta surtindo efeito pois assisti algumas apresentações ao vivo e ela manda muito bem.





Gringa - Ela nasceu Annelise, depois virou Isi e hoje é GRINGA, a nova promessa da pop music no país. Uma cantora que surge trazendo um repertório em português com o beat e a pegada da american music. Desde pequena sonhava acordada com uma vida musical e teve seu encantamento ainda mais aguçado quando o pai lhe presenteou COM um DVD do Michael Jackson. “Achava aquilo incrível! Nada fazia eu me divertir mais do que vê-lo. Eu sabia de cor e salteado todos os detalhes, a ordem das músicas, o figurino, o elenco, a melodia, o refrão”, diz. Em breve ela lançara o primeiro EP, que leva seu nome e traz produção assinada por JayKay, com cinco músicas dançantes na pegada do hip hop, do pop, da música eletrônica e do R&B.
A inspiração das batidas veio de nomes que Gringa curte ouvir e que tem tudo a ver com seu estilo musical, como Tinashe, Cassie, Mila J, Rihanna, Jasmine V, Mýa, Justine Skye, Sevyn Streeter, entre outros artistas da cena. As músicas falam de relacionamento e também do universo feminino, com letras sobre independência e empoderamento. 




Iza - A Warner Music tem em suas mãos grandes cantores nacional, como Anitta, Ludmilla e Biel. Mas a nova aposta deles é Isabela Lima, conhecida como IZA, que foi oficialmente contratada em maio deste ano pela empresa gerenciadora de carreiras. A cantora, que é carioca, canta desde criança e aos 14 anos de idade começou a fazer shows para a igreja que frequentava. Com um carisma e talento sem igual, IZA logo ganhou o mundo e seus vídeos no YouTube chamaram a atenção da gravadora, que não perdeu a chance de fazer o convite. Seu cover para “Flawless” de Beyoncé e “Rude Boy” de Rihanna apresenta mais de 200 mil visualizações em seu canal. A cantora usa seu talento para propagar o discurso do empoderamento feminino e negro, e em breve, com o lançamento de faixas inéditas, isso estará bastante presente em sua carreira que ainda “engatinha”, mas cresce de forma rápida. Com forte influência do jazz e da música negra americana, os empresários da cantora estão criando um repertório bem jovem para atingir a massa. As inspirações da artista não deixam dúvidas de sua visibilidade de mercado e influência: indo de lendas como Lauryn Hill, Tina Turner, Diana Ross e Stevie Wonder até mesmo cantoras que fazem grande sucesso atualmente como Beyoncé, Rihanna e Tinashe. 




Lay - Moda, punk, rap, empoderamento feminino e muita atitude. Essas são apenas algumas das palavras que podem ser utilizadas para tentar definir um pouco o som de Lay. Seguindo a onda anos 90, a cantora se inspira em Foxy Brown e Lil’ Kim. Na adolescência, foi punk e também teve um pé no reggae. “Eu sempre fiz um mix de tudo que eu gostei, você olharia para mim e falaria ‘pô, essa menina deve curtir um rock, mas não é só isso.”   

A começar pela pluralidade que ela carrega em si mesma: é rapper, trabalhou com moda, escrevia poesia feminista – que hoje foi transformada em música e é uma camaleoa, esta sempre om um visual diferente a cada semana. E junte a tudo isso a atitude punk da garota. O som do primeiro EP é uma mistura de rap com influências do dancehall reggae, e mistura temáticas relacionadas com sua vida. Além disso, o EP conta com um beat do carioca Nox e a participação do Flow MC. Iremos falar mais dela mais pra frente.


7 cantoras dos anos 70 que você precisa conhecer

Cátia de França


O Brasil conta com mulheres talentosas em todas as áreas, e com a música não é diferente. No entanto, com o passar dos anos, alguns nomes e seus feitos acabam esquecidos ou relegados a um público bem específico e restrito. Com essa listinha básica, procuramos colocar alguma luz nesses nomes obscuros e desconhecidos do grande público. Hippies, sambistas, pesquisadoras de cultura indígena, psicodélicas e experimentais. Elas fizeram a cabeça de muita gente na década de 70 e com certeza vão fazer a sua também!


Sônia Santos – Nascida no Rio de Janeiro, mora há décadas nos Estados Unidos e canta até hoje. Lançou dois LPs na década de 70, entre eles “Crioula”, que pode ser conferido abaixo. O estilo é um samba cheio de elegância e com toques de MPB e até bolero.



Tetê Espíndola – Quando se fala em Tetê Espíndola, a maioria se lembra da canção “Escrito nas Estrelas” – claro, lembramos também da voz alta e tão peculiar dela, amada por muitas pessoas e odiada por outras. O que pouca gente sabe é que ela gravou com os irmãos, em 1978, o álbum “Tetê & O Lírio Selvagem”. Mesmo antes de participar da vanguarda musical dos anos 80, ao lado de nomes como Arrigo Barnabé, Tetê já esbanjava experimentalismo (alguns sugerem Kate Bush como influência) e até certa dose de psicodelia. Tudo pode ser conferido nesse clássico do rock rural. 



Joyce – Mais uma carioca na lista. Joyce lançou seu primeiro LP em 1968. Além de cantora, é compositora e multi instrumentista. Experimentou um relativo sucesso durante os anos 70, até o começo dos anos 80. Conta com mais de 30 álbuns em sua discografia e tem duas filhas que também são cantoras (Clara Moreno e Ana Martins) com vários álbuns lançados. No álbum “Passarinho Urbano”, de 1976, Joyce interpreta sambas clássicos e modernos, com uma roupagem minimalista e com sua típica voz orgânica e suave. Destaque para a última faixa, onde Joyce musica o famoso “Poeminho do Contra”, de Mário Quintana.


Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho


Luli e Lucina – Além da música, essa dupla tem uma história e tanto. O álbum escolhido abaixo, de 1979, foi composto no sítio à beira-mar onde moravam na época, em Mangaratiba. A vida era simples, com desapego material e comunitária (o sítio estava sempre cheio de visitas, amigos e moradores temporários), no melhor estilo hippie. Elas acordavam cedo, viam o sol nascer e então compunham melodias – que resultaram neste disco. Na mesma época tiveram uma união a 3 com um fotógrafo, que gerou filhos e durou até a morte do mesmo. Se até hoje esse tipo de relacionamento é tabu, imaginem em plena ditadura militar! Musicalmente, elas criaram mais de mil composições e tem canções interpretadas por Ney Matogrosso e Secos & Molhados. O estilo é uma MPB com melodias e harmonias vocais belíssimas e delicadas, acompanhadas por violão dedilhado e com uma aura de sonho e tranquilidade, que também é expressada muito bem pela capa do álbum.



Olívia Byington – “Corra o Risco” é o primeiro álbum de Olívia. Sua voz (e que voz!), somada à banda de apoio “A Barca do Sol”, remete a grandes nomes do rock progressivo com vocalistas femininas, como Renaissance e Curved Air. As músicas do álbum são compostas por gente de peso, como Jaques Morelembaum, Egberto Gismonti, John Neschling e Astor Piazzola. Os destaques do álbum vão para a faixa de abertura, “Fantasma da Ópera”, e a que encerra o trabalho, “Luz do Tango”, que são as mais poderosas e com  ar de prog rock setentista. Olívia não compõe nem lança discos há alguns anos, mas em 2016 ela lançou um livro chamado “O Que é que Ele Tem?”, onde fala sobre a síndrome rara de seu filho, João. Ah, e ela também é mãe do Gregório Duvivier.



Marlui Miranda – Mais uma artista incrível, que lançou um álbum que se tornou um tesouro obscuro da MPB. Marlui pesquisa, desde a década de 70, por sonoridades de culturas indígenas brasileiras e suas composições incorporam alguns desses elementos. Ela ganhou o Prêmio da Música Brasileira em 2015 e trabalhou com grandes nomes ao longo de sua carreira, inclusive como compositora. No álbum Olho d’Água (1979) o que predomina é a MPB, mas  já é possível notar as inspirações indígenas, tanto nas letras como nos sons. Os arranjos do álbum são de Egberto Gismonti. Ela também gravou álbuns com releituras de músicas sertanejas, de músicas do norte do país e com cantos indígenas, como “IHU – Todos os Sons”, de 1995, com canções de várias tribos.



Cátia de França – E por último, mas não menos importante, a minha preferida dessa lista. “20 Palavras ao Redor do Sol” é o álbum de estreia dessa paraibana e é todo especial, a começar pelas letras, que são compostas sobre poemas de João Cabral de Melo Neto (em obras posteriores ela usou outros grandes nomes da literatura nacional, como Guimarães Rosa, José Lins do Rego e Manoel de Barros). Além de cantora e compositora, Cátia França também é multi instrumentista e toca sanfona, violão, piano, flauta e percussão (ela chegou a ser professora de música por um tempo, antes de se dedicar exclusivamente à composição). Em cerca de 40 anos de carreira, Cátia gravou menos de 10 álbuns. Já trabalhou com Chico Cesar, Sivuca, José Ramalho, Elba Ramalho, Amelinha, Lulu Santos e Jackson do Pandeiro, entre outros. Dona de uma voz forte, segue firme até hoje na carreira musical, como vocês podem ver AQUI. “20 Palavras ao Redor do Sol” é um disco poderoso, com sofisticados arranjos de violões dedilhados e flautas, além de uma rica percussão e da marcante voz de Cátia. Daqueles álbuns para se ouvir a vida toda…


Por: Isabelle Simões 



Um entendimento básico sobre o Movimento Tropicalista


Homens de terno branco, chapéu panamá, sapatos bicolores. Mulheres de vestidos rodados em verde, amarelo e turquesa, dançando entre bananas e abacaxis. A festa delirante foi o cenário criado por Nelson Motta para o falso manifesto Cruzada tropicalista, publicado na finada Última Hora em 5 de fevereiro de 1968. Sem saber, o jornalista e produtor musical batizava o movimento cultural que incomodou a ditadura militar e lançou artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Os Mutantes, que mudariam para sempre o cenário musical brasileiro.

Enquanto a tropa de elite da música popular ainda bebia na fonte comportada da bossa nova e a juventude engajada entoava canções de protesto de Chico Buarque e Geraldo Vandré, uma turma de cabeludos flertava com o movimento hippie e trocava o trio uísque, banquinho e violão pela guitarra elétrica. E alucinógenos mais poderosos, como o LSD.

Na pré-história da TV brasileira, os tropicalistas tomaram de assalto os festivais que arrastavam multidões para ouvir artistas populares. Nas eliminatórias do III Festival Internacional da Canção, em São Paulo, Caetano e Os Mutantes enfrentaram uma chuva de ovos e tomates com “É proibido proibir”, uma confusão sonora que terminava com o slogan dos estudantes franceses berrado até o limite de distorção dos microfones. Sem compromisso com a esquerda estudantil, Caetano desafiou as vaias: “Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?” Mas a oposição não estava só na militância política: a anarquia da Tropicália incomodava o status-quo da música popular, como lembra Nelson Motta:

– Os tropicalistas ofereciam liberdade total de temas, ritmos e vocabulário. Isso incomodou as estrelas da MPB, cada vez mais fechada e radical.


Repressão e beco sem saída

Em maio de 68, Caetano coordenou as gravações de Tropicália ou Panis et Circensis, álbum coletivo que reuniu outros ícones da turma como Capinam, Tom Zé, Gal Costa e o poeta Torquato Neto. Na capa, o maestro Rogério Duprat, responsável pelos arranjos, segura um penico como se fosse uma xícara. A experimentação chegava ao limite na mistura de poesia concreta, arte contemporânea, cinema de vanguarda e ácido lisérgico.

Para um movimento que vivia da liberdade, o AI-5, sete meses depois, veio como sentença de morte. Acusados de subversão, Caetano e Gil foram presos até o início de 69, quando rumaram para o exílio em Londres. Segundo Nelson Motta, a interrupção forçada livrou os tropicalistas de um “beco criativo sem saída”.

– O movimento estava cada vez mais experimental, cada vez mais louco, e começava a se afastar do público – lembra o jornalista, que vê no samba Aquele abraço, composto por Gil no caminho entre a cadeia e o aeroporto, um reencontro com o pop e o mundo real.


Velhinhos, mas influentes

Quatro décadas depois, as influências da Tropicália sobrevivem no som de artistas como Marisa Monte, Adriana Calcanhoto, Marcelo D2 e Seu Jorge. Com os cabelos grisalhos e bem aparados, Caetano é um senhor que ainda concede entrevistas polêmicas, mas dança no compasso das gravadoras, canta Cole Porter em inglês e sobe ao palco de terno e gravata. Gil também trocou a cabeleira e as roupas coloridas pelo figurino embecado de ministro da Cultura do governo Lula.

Os tropicalistas envelheceram, é verdade, mas continuam influenciando e movimentando a cena cultural brasileira. E despertando interesse mundial, como comprova a exposição Tropicália, em cartaz até 30 de setembro no Museu de Arte Moderna do Rio, depois de passar por Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos. A mostra reúne discos, cartazes, poemas e os penetráveis de Helio Oiticica, papa tropicalista da arte contemporânea. Os trabalhos foram abertos em fevereiro do ano passado, em Londres, com shows de Tom Zé, Gal Costa, Gilberto Gil e a primeira apresentação do aguardado revival dos Mutantes. Mas sem a cantora Rita Lee – que deixou o barco em 1972, quando o grupo mergulhava no rock progressivo, para se tornar rainha do pop nacional.


* Publicado originalmente em fevereiro de 2006, quando a exposição Tropicália foi inaugurada no Barbican, em Londres


A Revolução no Rock e Pop nas poesias de Bob Dylan.


As letras de Bob Dylan foram responsáveis por uma revolução na qualidade do rock e do pop. No começo dos anos sessenta, Dylan, já consagrado por suas letras e canções, deu uma gozada em John Lennon e nas letras infantis que os Beatles faziam com tanto sucesso (uma certa inveja ali). Isto despertou John, que em seguida começou com suas pérolas intimistas como In My Life (Rubber Soul), e até mesmo Paul. E por aí todos se miraram, tentando levar qualidade literária para o rock e pop que explodiam. Aqui vai um filminho que mostra Dylan em muitas de suas fases, com uma boa canção do recente Modern Times.


5 documentários de música para assistir no Netflix

Para os apaixonados em conhecer novos artistas ou redescobrir aqueles artistas que fizeram história na música trouxemos 5 documentários sensacionais que você consegue assistir pelo Netflix. 

I. Can’t stand losing you – sobrevivendo ao The Police


Dirigido por Lauren Lazin e Andy Grieve, o documentário Can’t stand losing you é baseado no livro One Train Later, escrito pelo guitarrista Andy Summers, e conta a trajetória da banda The Police, mostrando o percurso do grupo desde o início da carreira, até o seu fim. Narrado pelo próprio Summers — que sempre andava com a câmera a postos, fotografando tudo de interessante que visse pela frente —, o documentário traz algumas de suas fotos inéditas, mostra os excessos da banda no consumo de drogas e álcool e os problemas acarretados pela guerra de egos entre os integrantes.


II - AMY


Vencedor do Oscar de Melhor Documentário de 2016, Amy conta a história de uma das mais belas e poderosas vozes do mundo, trazendo vídeos e fotos preciosos desde a infância da cantora, além de depoimentos de amigos e familiares. Amy Winehouse teve uma carreira curta, glamourosa, turbulenta e o documentário vai muito além do seu conhecido problema com o consumo de álcool e drogas: mostra o seu relacionamento problemático com Blake Fielder-Civil e com seu pai, que renderam músicas tão maravilhosas quanto perturbadoras; a fragilidade por trás da figura imponente e marcante de Amy, que tantas vezes anunciou em Rehab “I don’t ever want to drink again… I just need a friend.” (Eu não quero beber nunca mais, eu só preciso de um amigo), os problemas com a imprensa, mas, principalmente, o ser humano por trás da celebridade.


III. Buena Vista Social Club


Em 1996, Ry Cooder, guitarrista e produtor musical, vai a Cuba na intenção de reunir músicos veteranos da década de 50 para a gravação de um cd. Deste grupo formado por Ibrahim Ferrer, Omara Portuondo, Rúben González, Compay Segundo, entre outros, sai o disco Buena Vista Social Club (o nome faz referência a uma antiga casa de shows de Havana, fechada nos anos 50). O disco foi premiado com um Grammy, vendeu milhares de cópias no mundo todo e é até hoje o álbum de maior sucesso da música cubana. Dois anos após a gravação, o Diretor Wim Wenders, velho amigo de Ry, volta a Havana para filmar em seu documentário as histórias dos músicos que participaram do projeto. O documentário foi indicado ao Oscar de 2000, concorrendo na categoria de Melhor Documentário, e venceu, na mesma categoria, o prêmio Satellite Awards (2000).

IV. Cauby – começaria tudo outra vez.


No dia 15 de Maio deste ano, aos 85 anos, faleceu Cauby Peixoto, considerado por Elis Regina, Agnaldo Rayol e outros o maior cantor do Brasil. O Documentário com roteiro e direção de Nelson Honeiff foi uma bela homenagem à vida e carreira de Cauby — que pouco falou durante todo o documentário —, abordando temas como sua bissexualidade, sua ida para os Estados Unidos nos anos 50 e algumas parcerias duvidosas, mas sempre com os holofotes virados para a grandeza de Cauby Peixoto.

V. Johnny e June


A cinebiografia Jhonny e June — em inglês Walk the Line —, baseado em seu livro autobiográfico, conta a história do cantor country Johnny Cash, passando pela sua infância conturbada, quando ele só cantava nos campos de algodão, pelo serviço militar, o início de sua carreira em Memphis, Tennessee, quando gravou ao lado de Elvis Presley e Jerry Lee Lewis, até conhecer June Carter, o grande amor da sua vida.
Joaquin Phoenix interpreta o papel de Johnny Cash, personagem que oscila entre sua personalidade bad boy/viciado e bom moço até conquistar o coração de June, interpretada por Reese Witherspoon — papel que lhe rendeu o prêmio de Melhor Atriz no Oscar e o Globo de Ouro na categoria Comédia/Musical.

9 Vezes que Janet Jackson fez a diferença na Indústria Musical.

Matéria traduzida do site Popcrush.com


I - VIDEOCLIPES 

É frequentemente notado o jeito com que os contemporâneos de Janet, Madonna e Michael Jackson fizeram dos videoclipes um evento no começo dos anos 80. Mas quando Janet lançou clipes para os singles de seu álbum revelação, Control, em 1986, ela demonstrou uma maestria da arte que se tornaria a marca registrada de sua carreira. Desde a coreografia complexa em What Have You Done For Me Lately aos visuais pop-políticos do longa metragem Rhythm Nation em 1989, Janet exibiu um conhecimento e aptidão para performar em videoclipes que cimentariam seu status como ícone pop.



Essa moda continuaria ao longo de sua carreira, na imagem descaradamente sexual do clipe de If, aos detalhes elegantemente executados de Got ‘Til It’s Gone e a festa dançante de desenho animado de All For You. Janet te lembrou que o videoclipe era a plataforma perfeita para um superstar passar sua mensagem, não importa as diferenças entre as músicas.



II - SEXO

Todos nós já lemos muitas opiniões de que as rainhas pop de hoje são tão hipersexualizadas que o Billboard Hot 100 é apenas um slideshow de soft-porn. Mas essa é uma visão limitada e ignora que muitos titãs do pop aceitaram seu lado sexy.


Enquanto a abordagem destemida da Madonna em relação à sexualidade pareceu ter um pico (e quase descarrilhar sua carreira) no Erotica de 1992, o esforço auto-intitulado de Janet em 1993 presenciou Jackson se arriscar no tema do sexo e prosseguir sem nenhum problema para a próxima etapa em sua carreira. Isso pode ter atingido a saturação com as consequências ruins pós-Superbowl em 2004, mas a Janet dos anos 90 mostrou às estrelinhas pop de hoje o manual de como fazer música crescida, embutida de sexo que ainda pudesse ter apelo popular. (Você com certeza sabe que a Christina Aguilera, Britney Spears e Miley Cyrus  tiveram que ouvir If antes de planejar suas transformações sensuais.)

III - TURNÊS CARÍSSIMAS 

O sucesso estrondoso de Rhythm Nation pôs a Janet na estrada para a sua primeira turnê em 1990. A jornada, imaginativamente chamada de Rhythm Nation Tour, se tornaria a turnê de estreia de maior sucesso por qualquer artista, lucrando 28 milhões de dólares de mais de 110 shows. 



Com todas as suas turnês, a Janet ajudou a construir o tipo de espetáculo multi-mídia que hoje é o padrão para a Gaga, P!nk e Britney entre inúmeros outros. De um esquadrão de dançarinos até várias trocas de roupa, a Janet foi uma das primeiras estrelas a recriar o mundo luxuoso de seus videoclipes em um contexto ao vivo. 

IV - COREOGRAFIAS

De shows luxuosos a vídeos chamativos, uma das marcas da Janet logo se tornou a coreografia complexa e instantaneamente icônica, que também lançou as carreiras de coreógrafas famosas como Tina Landon e Paula Abdul. De What Have You Done For Me Lately para frente, a Janet foi pioneira num tipo vigoroso, aparentemente fácil, mas estonteante de fazer passos de dança minuciosamente coreografados.



Vídeos como Rhythm Nation, If, The Pleasure Principle e Together Again mostraram o dom de Janet de trocar seu estilo de dança com facilidade. Escolha qualquer clipe no estilo “grupo de dançarinos atrás de um popstar” dos últimos 15 anos e você verá, logo de cara, a influência de Janet né Britney Spears? 

V - PRODUÇÃO POP

Nos últimos cinco anos o produtor se tornou mais proeminente no pop do que nunca antes. De DJs como o Diplo e o David Guetta ao sucesso continuado de Dr. Luke e Max Martin, as pessoas que mexem nos botõezinhos de controle nas músicas de sucesso têm tanta fama quanto as estrelas que os representam. A Janet entendeu o poder de um bom time de produção em um ponto chave de sua carreira.



Quando ela se reinventou com o charme durão e “da rua” do Control, Janet se amarrou aos colaboradores do Prince (e estrelas por seu próprio mérito), Jimmy Jam e Terry Lewis, para reformular seu som. Valeu a pena, e significou que dos 16 (!) números um do Billboard Hot 100 que Jam e Lewis lançaram, 9 deles vieram de seu trabalho com a Janet. Ela mostrou o poder de se achar um time certo de produção para estender sua visão, e a mágica da colaboração de Janet, Jam e Lewis ajudou a torná-la uma estrela.

VI - ÁLBUNS QUE ERAM VERDADEIROS EVENTOS

Assim que a Janet fez com que o mundo pop realmente a notasse com o sucesso de Control, inédito em sua carreira, ela fez de seus lançamentos de álbuns eventos: de interludes às músicas que não eram singles, cada álbum da Janet era um conjunto de trabalho completo e apenas lançado de alguns em alguns anos. 


Jackson fez de seus álbuns lançamentos de muito sucesso e, bem antes do momento atual onde os singles vêm com um teaser, lyric video, revelação da capa e relançamento de álbuns quase imediatamente, Jackson mostrou o poder de fazer do álbum seu cartão de visita.

VII - CONTRATOS COM GRAVADORAS

Antes do álbum janet., Jackson assinou um contrato com a Virgin Recods que valia 50 milhões de dólares – um valor sem precedentes na época, que depois foi aumentado para 80 milhões no meio dos anos 90 para o lançamento do Velvet Rope. Jackson fez com que o mercado musical pusesse dinheiro em seu trabalho, num gesto que significou o poder da estrela pop de alto calibre. Agora, as gravadoras montam “contratos 360º”, o Jay-Z usa estrelas de nomes fortes para promover o Tidal e as estrelas usam o apelo de suas músicas como moeda de troca em contratos para outros negócios.


Antes de Taylor Swift e Gaga estarem no topo da lista da Forbes de estrelas do pop poderosas, Janet estava mostrando como o mundo musical poderia retribuir aos artistas que lhe renderam tanto dinheiro. 

VIII - FUTUROS ARTISTAS

A influência de Janet foi citada por um grande grupo de artistas pop, e ela até ajudou no começo de algumas cantoras: a Paula Abdul entrou numa carreira de enorme sucesso após a Janet tê-la encorajado a fazê-lo, depois de ter coreografado algumas de suas músicas. A Jennifer Lopez apareceu pela primeira vez nas telinhas no clipe de That’s The Way Love Goes e, frequentemente, cita o estilo próprio de dança da Janet como uma inspiração.



Enquanto isso, a influência visual em cantoras como Britney Spears, Ciara e Zendaya é óbvio. Para falar a verdade, por tanto que falam que a Britney estava supostamente imitando a Madonna, seu estilo de dança e até a transição para uma imagem sensual pareciam muito mais alinhados ao jeito com que Janet deixou sua marca. P!nk, Beyoncé, Kelly Rowland, Justin Timberlake, Rihanna e Lady Gaga citaram, todos, a influência de Jackson neles como estrelas pop, o que mostra a duração e a amplitude de seu impacto no pop, ainda em andamento.


E não são apenas seus contemporâneos pop! Little Dragon, Dev Hynes e How To Dress Well são apenas alguns exemplos de artistas alternativos que mencionam serem fãs do material de Janet, enquanto Poetic Justice de Kendrick Lamar, lançada em 2013, contem um sample de Any Time, Any Place. 

IV - O VOLVET ROPE E ALÉM

Janet já havia aceito sua sexualidade, falado sobre o estado do mundo e se emancipado das pressões familiares em seus álbuns antes do The Velvet Rope. Mas, neste lançamento de 1998, ela mergulhou em assuntos mais pesados e criou um álbum com reviravoltas agora padrões para o R&B “alternativo”. Antes do The Weeknd, FKA Twigs e Kelela serem queridinhos da crítica, a Janet estava explorando a produção inovadora, honestidade brutal e uma visão inalterável.



Do brilho alegre de house-pop de Together Again à abordagem assustadoramente realista de como a internet gera desejos em Empty, este é não só um dos melhores álbuns de Janet, mas também mostrou um caminho ao qual muitos artistas se destinariam, musicalmente, anos depois.

Artistas revelam segredos de 5 capas clássicas da MPB.

Experimentalismo, censura e partes íntimas


Em um futuro próximo, jovens ouvintes vão ficar incrédulos: mas, sim, houve um tempo em que lançar um disco era um conceito mais amplo do que apenas listar arquivos digitais comprimidos. Havia um tema, um nome e uma capa. Estampada em um pedaço de papelão de 12 polegadas, a imagem era a síntese de uma obra. "É a vida que produz a arte. E a capa tem que fazer o sujeito entender e se interessar pelo o que vai ver ou ouvir", explica o artista gráfico Elifas Andreato, autor de tantos cartazes de filmes e capas de discos que não cabem na prateleira.

Há 40 anos, o vinil era a principal forma de se ouvir música e, embora a censura da ditadura ainda quisesse calar, histórias de relacionamentos, de intimidade e de experimentos rendiam discos históricos e alegorias para as vitrines das lojas. "Até 1973, as capas eram feitas diante das convicções das gravadoras. Eram eles que escolhiam a arte", conta Elifas. Não à toa, em uma pesquisa sobre as melhores capas de discos brasileiros, feita em 2001 pelo jornal "Folha de S. Paulo", cinco trabalhos de 1973 apareceram no top 10. 
Secos, molhados e decepados

Lembrado até hoje como um dos maiores discos brasileiros (com a melhor capa, segundo a "Folha"), o álbum de estreia do Secos & Molhados foi gravado com um objetivo claro na cabeça: "Ser o 'Sgt. Pepper's Lonely Heart Club Band'' (disco dos Beatles, de 1967)", conta um dos fundadores da banda, João Ricardo, ao UOL. "Qualquer um que fizesse um disco, almejava uma obra-prima. Agora, nunca pensei que se tornaria o que se tornou. A maneira de como tocou as pessoas continua me surpreendendo até hoje".
A força musical do disco foi realmente revolucionária. "Secos & Molhados" vendeu rios de cópias e encheu estádios com uma facilidade de um ídolo teen de hoje. Ney Matogrosso, provocativo, já rebolava ao som de "O Vira" e "Mulher Barriguda", sob os olhos atentos da ditadura. Um fenômeno que, de certa forma, começava pela sua capa anárquica: com as cabeças dos integrantes degoladas, servidas à mesa, como um banquete. "As maquiagens praticamente surgiram dessa foto. Nos shows já fazíamos pinturas leves, mas a definição veio ali", revela João.

A ideia surgiu do fotógrafo Antonio Carlos Rodrigues, que trabalhava com o músico no jornal "Última Hora". João revela o truque: "Tivemos que furar um compensado, colocado entre dois cavaletes, para colocarmos as cabeças. Ficávamos sentados em tijolos para mantermos a mesma altura. Antes fui com o Gerson (Conrad) comprar os alimentos no único supermercado aberto à noite. Foi cansativo mesmo".
Olho do c*
No mesmo contexto da ditadura, um olho inusitado se abria na capa de"Todos os Olhos", de Tom Zé. Com as composições cada vez mais concretistas e inventivas, o baiano de Irará deixou a arte do novo disco na mão da agência de publicidade do poeta Décio Pignatari, que quis levar "a fundo" uma ideia para contextualizar o nome do álbum: "fotografar o olho do c*", como bem explica o escritor e autor da capa, Reinaldo Moraes.



Para a tarefa, Reinaldo convenceu uma amiga-namorada a servir como "modelo" do polêmico orifício e lançou mão de uma bolinha de gude verde para servir como retina. A capa foi para as lojas sem muito alarde: "A gravadora não lançaria o disco se soubesse disso. Apenas eu e alguns amigos mais próximos sabíamos. Como a capa era muito bonita, ficava na vitrine, as pessoas falavam: vou lá olhar um c* na vitrine", relembra Tom Zé.




A história, de tão repetida, virou fato. Mas Reinaldo conta que as fotos daquele dia careciam de ambiguidade. "A verdadeira natureza anatômica do dito 'olho' não se deixava disfarçar", conta. Testou então o mesmo objeto nos lábios carnudos da garota. É essa a verdadeira origem da imagem da capa.

O UOL contou para Tom Zé a história relatada por Reinaldo Moraes. "Não soube disso oficialmente. Estou sabendo agora que você está falando. O Décio nunca me falou nada. Para nós, era civicamente um c*", disse, aos risos.
Disco para entendidos

A invasão dessas pérolas nas lojas começou em janeiro de 1973 com "Araçá Azul". Recém-chegado ao Brasil, após exílio de dois anos em Londres, Caetano Veloso entrou sozinho em um estúdio sem composições prontas, mas com a alma inquieta para experimentar. Cantou samba em ritmo de rock com "Eu Quero Essa Mulher", gravou "Épico" no meio de uma avenida movimentada em São Paulo e apenas grunhiu em "De Conversa".
Na capa, em uma foto acachapante, com um ângulo inusitado, ele aparece refletido em um espelho, com cabeleira rebelde, o olhar escondido, a barriga levemente saliente. Para fechar, escreveu na capa dupla: "Um disco para entendidos". Ninguém entendeu nada e o álbum bateu recorde de devolução nas lojas. "Eu me orgulhava desse tipo de fracasso", confidenciou Caetano em seu livro-ensaio "Verdade Tropical".



"Fica mal eu falar isso, mas acho a foto desprezível", diz o diretor de cinema e autor da foto, Ivan Cardoso. "Só uma besta fotografaria o Caetano sem mostrar os olhos, com o pé do Luciano Figueiredo (que assina a produção da capa) aparecendo embaixo".

Na casa dos 20 anos, Ivan aceitou o trabalho da gravadora e viajou com Caetano para a Bahia sem nenhuma ideia na cabeça. "Eu não era um fotógrafo, só saía clicando. Nunca revelei um filme na minha vida. A capa foi uma contribuição de erros. Naquela época era tudo 'do it yourself'. Pegamos aquele espelho não sei onde", revela.
Índia de tapa-sexo

"('Índia') foi o começo de uma ruptura radical de todos aqueles discos mais radicais dos anos 60. É um disco que não é eletrônico", explica Gal Costa. Até então musa da contracultura no Brasil, Gal quis pisar mais na terra. Gravou a versão guarânia de "Índia", hoje lembrado como um dos registros mais poderosos de sua carreira. A ideia surgiu do amigo Caetano, que mandou sugestões de canções em uma fita cassete.
O encontro com as raízes brasileiras (e paraguaias, e lusitanas) não foi só musical. Gal vestiu a persona e posou para fotos pintada e com os seios de fora. "Eu me lembro que foi uma sessão longa, ao ar livre, talvez no Jardim Botânico (do Rio de Janeiro). Eu estava com um tapa sexo, não era nem biquíni, e as fotos foram feitas pelo Antonio Guerreiro, que também fez a roupa", conta.



"Fizemos diversas opções, ela sempre de Índia e nua, com os seios aparecendo, mas optamos pela foto com o corte (na barriga), onde existia muita sensualidade", lembra o fotógrafo.




A censura vetou a exposição da capa e o disco foi vendido nas lojas dentro de um plástico opaco, azul. Misteriosamente, a letra de "Presente Cotidiano" de Luiz Melodia, também caiu na navalha. "Eu dava risada. Achava tudo tão ridículo, não via motivo para se proibir uma capa daquela, tampouco achar aquela canção subversiva. Achava uma loucura, um absurdo, me dava raiva", conta Gal.



Retrato de uma separação


A parte íntima que marca a capa e a história de "Nervos de Aço", 6° disco de Paulinho da Viola, é um coração abandonado e partido. "Na época, muita gente pedia para retirar o disco das lojas. 'Como podem ter feito isso, uma invasão de privacidade, logo com um sujeito como o Paulinho'", relembra Elifas Andreato.

Chegado do sambista, o artista gráfico foi chamado para criar a arte. Para entender melhor o que era o novo trabalho, viajou para se encontrar com Paulinho no Rio. "Cheguei lá e o apartamento estava vazio. Ele pegou os banquinhos e tocou 'Nervos de Aço'. A frase dele quando nos sentamos: 'perdoe, estou me separando'. Fiquei chocado".
Elifas se aproximou mais de Paulinho e, entre jogadas de sinuca, percebeu que não tinha para onde fugir. "Conhecendo o casal, a canção do Lupicínio Rodrigues ('Nervos de Aço'), pensei: preciso ser lupicíniano". Ao mostrar a imagem de Paulinho aos prantos, com um ramalhete de flores na mão, o cantor inicialmente ficou incomodado. Admitiu mais tarde, diante da gravadora, que relutava com a ideia. "Ele disse: 'É difícil, mas essa É a capa do disco'", conta Elifas.
Por: Eduardo Tulio do site UOL.